Por Milton R. Almeida
Achar, no sentido de acreditar, julgar ou supor é um dos maiores riscos para a sobrevivência de uma organização, por mais incrível que essa afirmação possa parecer. "Eu acho que..." é uma das frases mais ditas em qualquer reunião de planejamento ou decisão de problemas. Há ocasiões em que estas palavras são inofensivas mas, em outras, podem trazer conseqüências devastadoras se seus autores estiverem errados e possuem o poder ou autoridade para colocá-las em prática.
O "achismo" não faz parte do repertório das boas práticas de Administração, embora seja constantemente utilizado nas tomadas de decisões, grandes ou pequenas. É a forma que as pessoas sem os adequados conhecimentos encontram para manifestar-se sobre algum assunto, revelando uma percepção incompleta e sem fundamentos das circunstancias ou complexidade de uma situação.
Essa percepção superficial da realidade também tem sido demonstrada, em exemplos históricos, por pessoas consideradas especialistas ou autoridades em suas áreas de atuação. Vejamos alguns:
- Lord Kelvin, matemático e físico britânico e presidente da British Royal Society, em 1895 achava que "máquinas voadoras mais pesadas que o ar são impossíveis".
- O capitão Edward J. Smith (futuro comandante do navio "Titanic"), da White Star Line, em 1906 achava que nada poderia afundar um navio: "Não posso imaginar nenhuma condição que possa provocar o afundamento de um navio. A moderna construção naval já superou isso".
- A "The Harvard Economic Society" achava, em 16 de novembro de 1929, que "uma severa depressão econômica como a de 1920-21 está fora das probabilidades".
- Em 1943 o Chairman da IBM, Thomas J. Watson dizia: "Eu imagino que exista no mundo mercado para aproximadamente cinco computadores".
- "Esta é a maior fantasia que já ouvi. A bomba nunca será desenvolvida, e eu digo isso como especialista em explosivos". Este foi o "achismo" do Almirante William D. Leahy, em 1945, aconselhando o Presidente Harry S. Truman sobre a impraticabilidade do Projeto Bomba Atômica.
- E esta crítica de um executivo da Decca Recording Co., sobre os Beatles, em 1962: "Nós não gostamos da música deles. Grupos de guitarras estão no caminho errado". Mais um "achismo" errado.
- Um "achismo" que impediu uma empresa de ganhar muito dinheiro: "Não há nenhuma razão para que uma pessoa tenha um computador em sua casa". Palavras de Ken Olson, presidente da Digital Equipment Corporation, em 1977.
As frases revelam que seus autores cometeram graves erros de julgamento porque não sabiam, como muitos dirigentes de nossas modernas organizações, que seus processos de raciocínio processavam as informações de forma errada. Eles não foram treinados a pensar com métodos adequados. O "achismo" é um processo de filtragem mental que distorce as informações recebidas e as processa segundo nossos interesses, levando, na maioria das vezes, a decisões erradas. É preciso treinar o cérebro para pensar estrategicamente.
Este risco empresarial, apesar de grave, pode ser facilmente eliminado. Para evitar, ou pelo menos minimizar, o "achismo" nas decisões, as organizações devem adotar processos sistemáticos e organizados de obtenção de Inteligência e gestão de Conhecimentos para que seus gerentes não decidam por adivinhação. Administradores e estrategistas devem ter consciência de seus processos mentais de raciocínio. Devem pensar sobre COMO avaliam as circunstâncias, COMO estudam possibilidades, COMO fazem julgamentos e COMO tomam decisões. Conhecer o MÉTODO usado para chegar a uma decisão é tão importante quanto a própria decisão.
Para assegurar um futuro promissor é necessário que as organizações treinem adequadamente os gerentes que costumam decidir baseados no "achismo".
2 comentários:
Pois então, na CETSP temos esse grave problema; fica-se semppre na área do "achismo" porque não há planejamento e há uma lauta ausência de conhecimento por parte daqueles que deveriam conduzir o processo de desenvolvimento da empresa. Isso sem falar na questão da falta de compromisso dos demais empregados em se envolver em novos desafios.
De qualquer forma, o texto em tela é bastante esclarecedor nessas questões.
Parece-me que tomar decisões com base em 'achismos' é a norma. Basta verificar que são poucas as empresas que, a exemplo da Toyota, avaliam seus problemas cientificamente, ou seja, com base em fatos e não em opiniões. Acredito mesmo que este seja um dos grandes problemas da humanidade. Conheço um gestor que acha que sabe tudo e toma suas decisões com base nesse achismo. Mas, pior que isso, é observar que as pessoas, em sua maioria, não o questionam. Quanto mais reflito sobre essa questão, mais percebo os riscos que corremos, todos nós, a todo momento.
Parabéns pelo texto.
Postar um comentário